Integridade Digital Brasil

Normas e padrões

Padrões e normas da publicidade digital

As regras de medição de anúncio não nasceram em Brasília. Elas vêm do mercado global: IAB, MRC, Google e TAG: e só depois viraram exigência legal para a verba pública brasileira. Nesta ordem, tudo fica mais fácil de entender.

Um aviso de rumo antes de começar: nenhuma dessas instituições trata viewability como a prova final. Viewability é uma das provas. O que todas perseguem, cada uma pelo seu lado, é a entrega real: a garantia de que seis coisas aconteceram juntas:

Tire qualquer um dos seis e sobra um número que ninguém consegue defender numa auditoria.

Três níveis de medição

Impressão contada é só o chamado de rede. Impressão viewable exige criativo na tela pelo tempo mínimo. Entrega real junta render, URL, viewability, filtro de tráfego inválido, contexto da marca e verificação independente.

1. IAB e IAB Tech Lab: o vocabulário e a técnica

O IAB (Interactive Advertising Bureau) define o vocabulário da publicidade digital, e o IAB Tech Lab publica as especificações que fazem a cadeia funcionar. Três delas importam para integridade:

Repare que esse bloco não fala de visibilidade em nenhum momento. Ele responde a outra pergunta da entrega real: o inventário é mesmo de quem diz ser? Um anúncio perfeitamente visível num site falsificado continua sendo dinheiro perdido.

IAB global · IAB Tech Lab · ads.txt · IAB Brasil

2. MRC: quem audita quem mede

O Media Rating Council acredita empresas de medição. É dele, junto com o IAB, o padrão mundial de viewability: a definição do que significa um anúncio ter tido chance real de ser visto:

Repare no que a definição não diz: ela não afirma que o usuário olhou. Ela afirma que houve oportunidade de ver. E não diz nada sobre quem estava do outro lado, nem sobre onde o anúncio apareceu. Por isso a acreditação do MRC nunca foi só sobre viewability: ela cobre a metodologia inteira, incluindo o filtro de tráfego inválido.

Uma impressão que não consegue provar nem a oportunidade de ver não é métrica de entrega: é o registro de um chamado de rede. E uma impressão que prova só isso ainda está a meio caminho.

Media Rating Council

3. Google: o padrão na prática, em escala (e com IA dos dois lados)

O Google é o maior adserver do mundo e implementa esses padrões de duas formas que valem como referência de mercado:

Vale prestar atenção em como esse trabalho vem sendo descrito. O Google fala publicamente do uso de inteligência artificial e de grandes modelos de linguagem na detecção de tráfego inválido. Isso não é vitrine de tecnologia: é a admissão de que o outro lado também evoluiu. Quando o adversário passa a operar navegadores reais com comportamento plausível, filtro baseado em regra fixa não dá conta, e a defesa precisa aprender no mesmo ritmo do ataque.

Ainda assim, o próprio Google reconhece o limite: como a intenção do usuário nem sempre é detectável, é improvável que todo o tráfego inválido seja identificado proativamente. Ou seja: mesmo o melhor filtro do mercado é redução de risco, não garantia. É por isso que verificação independente continua importando, e é por isso que provar o render vale mais do que confiar na contagem.

Google Ad Traffic Quality · Active View · Metodologia de medição

4. TAG: a cadeia identificável

O Trustworthy Accountability Group certifica participantes da cadeia contra fraude e inventário falsificado. A lógica é simples: dinheiro só deveria circular entre partes identificáveis e auditáveis.

É a peça que sobra quando a discussão fica técnica demais. Não adianta medir com precisão cirúrgica uma veiculação intermediada por alguém que ninguém sabe quem é.

TAG


5. Brasil: SECOM, Instrução Normativa nº 4/2024

Com o padrão global posto, a norma brasileira fica fácil de ler. A IN SECOM/PR nº 4, de 23 de fevereiro de 2024 (alterada pela IN nº 7/2024) não cria um padrão paralelo: ela transforma em obrigação os mesmos quatro pilares que o mercado internacional já praticava. Os quatro juntos: não um deles como amostra grátis.

Exigência da SECOMEm palavras simplesEquivalente global
TAG seguraO código do anúncio precisa ser auditável: não uma caixa-preta.IAB Tech Lab
VerificationUma medição independente confirma onde e como o anúncio apareceu.MRC / TAG
ViewabilityProva de que o anúncio apareceu na tela (50% por ≥1s em display).IAB + MRC
Brand SafetyBloqueio de contextos ilegais ou inadequados à marca.TAG / IAB

Quem não permite a tecnologia de verificação não recebe verba: veículos e operadores programáticos precisam estar aptos no MIDIACAD, e o cadastro só é validado quando todos os parceiros aceitam a TAG segura. Descumprir custa suspensão e saída dos planos de mídia.

Legislação SECOM · Critérios de transparência / MIDIACAD

6. Brasil: CGU, boas práticas em mídias digitais

A cartilha da Controladoria-Geral da União é o documento brasileiro mais direto sobre o tema. Ela define que “impressão” só significa que o anúncio começou a carregar : não que alguém viu: e orienta explicitamente:

“Deve ser evitado, sempre que possível, o emprego de pixel contador.”

No lugar dele, a cartilha manda priorizar Ad Server com verificação de chaves de performance e da URL de veiculação: exatamente o que o padrão internacional já exigia. A definição de pixel contador que a própria cartilha usa é reveladora: o código que contabiliza impressões, cliques ou visualizações sem conseguir coletar viewability, domínio ou URL.

A cartilha também define fraude de um jeito que interessa aqui: tráfego inválido é visita ou clique gerado por robô, ou por um site disfarçado de outro para enganar o relatório final da campanha. Note que são duas fraudes diferentes: quem não é gente e onde não é o lugar: e que medir só visibilidade não pega nenhuma das duas sozinha.

Baixar cartilha CGU (PDF)

7. Privacidade (LGPD)

Medir anúncio envolve dados de navegação. O mínimo esperado: coletar só o necessário, ser transparente e não usar os dados para fins escondidos (Lei nº 13.709/2018).

Há um detalhe que costuma passar batido: as plataformas que exigem menos verificação geralmente são também as menos transparentes sobre o que coletam. Fraude e privacidade frouxa andam juntas com mais frequência do que se imagina.

8. Por que o mínimo pré-IA já não basta

Tudo o que está acima foi escrito para um mundo em que tráfego inválido era, na maior parte, script rudimentar: sem tela, sem render, com cabeçalho estranho e comportamento robótico. Nesse mundo, exigir render e medir visibilidade eliminava a maior parte do problema.

Esse mundo acabou. Hoje existem navegadores operados por inteligência artificial e agentes autônomos que:

A consequência é desconfortável e precisa ser dita sem rodeio: uma medição desenhada para robô burro passa a atestar como legítimo exatamente o tráfego que deveria barrar. Não porque a norma esteja errada, mas porque ela virou o piso, e o piso ficou baixo.

O que isso muda na prática, para quem compra mídia:

Nada disso invalida IAB, MRC, SECOM ou CGU. Só recoloca a leitura: essas normas são o mínimo exigível, não o suficiente. Cumprir a IN nº 4/2024 mantém a campanha em conformidade; provar entrega real é o que mantém o dinheiro comprando audiência.